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A Tchernóbil de Xi Jinping

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Ao sufocar as informações sobre a epidemia do novo coronavírus, o governo chinês repete os erros que acabaram por resultar no fim da União Soviética sob Mikhail Gorbachev Mulher veste máscara e capa de chuva em Pequim para se proteger contra a epidemia de coronavírus
Andy Wong/AP
O alastramento da nova variante do coronavírus batizada Covid-19 representa hoje o maior desafio para a ditadura do Partido Comunista Chinês (PCC). Uma comparação vem sendo repetida em análises e reportagens: trata-se, para a China de Xi Jinping, de um momento comparável ao que o desastre nuclear de Tchernóbil representou para a União Soviética de Mikhail Gorbachev.
Assim como os soviéticos tentaram fazer com a explosão na usina ucraniana em 26 de abril de 1986, os chineses no início abafaram as informações sobre o vírus. O oftalmologista Li Wenliang, que soou o alarme no final de dezembro na internet, foi detido e obrigado a assinar uma retratação. Na semana passada, Li morreu vítima do Covid-19.
Proliferaram as comparações com o físico Valery Legásov, chefe da delegação soviética que reconheceu as falhas no projeto de Tchernóbil numa conferência em Viena, mas depois foi posto na geladeira pelo regime comunista – e acabou se matando em 1988, no segundo aniversário da explosão. Ele deixou gravadas fitas com críticas severas à forma como Gorbachev lidou com a catástrofe.
Assim como a radiação de Tchernóbil, o Covid-19 continuou a se alastrar e obrigou o governo chinês a assumir outra atitude. Desde janeiro, a China afirma ter tomado medidas “dramáticas” para conter a epidemia. Diz colaborar com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotar transparência absoluta nas informações. Mas um relato publicado no fim de janeiro no China Media Project já deixava claras as contradições nesse discurso oficial.
Além de ter suprimido desde dezembro as primeiras informações sobre a epidemia, afirma o relato, o governo chinês fora informado nos primeiros dias de janeiro dos riscos, por cientistas que haviam isolado o Covid-19 em Pequim e Xangai. Ao mesmo tempo, emitia sucessivos comunicados oficiais negando tanto os novos casos quanto as provas de transmissão entre humanos. Em 19 de janeiro, foi mantida uma celebração em Wuhan, epicentro da epidemia, que atraiu gente de todo o país. Só no dia seguinte, Xi lançou o primeiro alerta oficial para o vírus, ainda em termos cautelosos.
À medida que os casos cresciam, a máquina de propaganda chinesa começou a agir. Centros de quarentena brotaram em toda parte. Imagens de um hospital erguido em dez dias circularam pelas redes sociais. Depois de semanas de pressão, a China recebeu enfim os especialistas da OMS no fim de janeiro. Pôs em isolamento forçado dezenas de milhões de pessoas. Fábricas de máscaras e suprimentos farmacêuticos entraram, com o perdão da imagem, em ritmo febril.
Mas informações e decisões continuam centralizadas em Pequim. As autoridades centrais mantêm distância “profilática” da província de Hubei, que ainda hoje concentra 80% dos casos e 97% das mortes. Até agora, Xi não pisou lá. Limitou-se a pronunciamentos e frases de efeito. Prometeu acabar com os mercados de animais vivos, como aquele de Wuhan onde se suspeita que o vírus tenha infectado a primeira vítima. Os censores oficiais continuam a deletar posts incômodos sobre a epidemia e a prender seus autores (exatamente como fizeram com Li).
As falhas na centralização ficaram claras ontem, quando o governo chinês se viu obrigado a reconhecer 15 mil novos casos (e 242 novas mortes) em Hubei e demitiu a cúpula partidária local. O secretário do PCC em Hubei desde 2016, JIang Chaoliang, foi substituído pelo prefeito de Xangai, Ying Yong. O líder do partido em Wuhan também foi trocado. A população chinesa continua revoltada e, apesar da censura, não cessa de protestar na internet ou em eventos com autoridades chinesas no exterior. O alvo preferido não são os líderes partidários de Hubei. É Xi.
Na União Soviética, um julgamento de cartas marcadas em 1987 eximiu as autoridades responsáveis pelo projeto de Tchernóbil e condenou apenas executivos e operadores da usina. O desastre provocara, contudo, uma cisão nas elites comunistas, com o surgimento do movimento ambientalista e nacionalista na Ucrânia. Cinco anos depois de Tchernóbil, Gorbachev caiu – e a União Soviética deixou de existir.
O PCC sempre foi assombrado pela derrocada do comunismo no país vizinho. O temor de que o fracasso de Gorbachev se repetisse na China está por trás do endurecimento do regime chinês nas últimas décadas, do Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, à repressão aos protestos em Hong Kong trinta anos depois. Xi e a cúpula do PCC acreditam que Gorbachev foi vítima da abertura ao Ocidente e que, para manter o poder, precisam manter o controle da informação. Esquecem, contudo, que ela se alastra mais rápido que qualquer vírus ou radiação.
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