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Entre a crueldade e a estupidez

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A reabertura dos estádios cariocas à torcida é um daqueles casos que, nas palavras de Nélson Rodrigues, só pode ter duas explicações: má-fé cínica ou obtusidade córnea Botafogo e Cabofriense se enfrentam ontem, no Estádio Nilton Santos vazio
Thayuan Leiras/GloboEsporte.com
Má-fé cínica ou obtusidade córnea. Era esse o bordão de Nélson Rodrigues – entre tantas outras coisas, uma espécie de patrono da crônica esportiva carioca – diante dos absurdos que volta e meia engolfavam a cena nacional. Não há melhor forma de qualificar a decisão, tomada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, de reabrir os estádios de futebol à torcida a partir do próximo dia 10. Das duas uma: ou bem se trata de estupidez profunda, ou então de crueldade extrema.
Um desavisado pode até alegar desconhecimento da ciência sobre a transmissão do novo coronavírus. Não é o caso do prefeito Marcelo Crivella, nem de nenhuma das autoridades e cartolas responsáveis pela decisão. Para os esquecidos, porém, sempre é bom relembrar os princípios básicos da epidemiologia que nos habituamos a estudar nos últimos meses – algo que, na leitura benigna, nenhum deles fez.
É verdade que a curva de casos diários entrou em fase descendente no município do Rio de Janeiro. Mas a taxa de contágio, conhecida como “número de reprodução” ou pela letra R, voltou a crescer desde o final de maio. Quando R está acima de 1, cada infectado transmite o vírus a mais de um outro – e a epidemia continua a crescer. Quando cai abaixo de 1, há menos infectados a cada dia – e ela desaparece naturalmente.
Os cálculos mantidos pelo Observatório Covid-BR demonstram, nas últimas semanas, uma alta preocupante no valor de R para a cidade do Rio de Janeiro. Depois de cair ao nível seguro de 0,75, R voltou a subir e ultrapassou a barreira de 1 no último dia 12. Não há sinal de queda desde então, apesar dos cuidados tomados na retomada de atividades econômicas, como uso de máscaras, trabalho remoto ou higiene frequente das mãos.
A ciência tem ainda mais a dizer a respeito da decisão de reabrir estádios à torcida. Diversos estudos têm confirmado a importância dos superdifusores na transmissão do novo coronavírus (leia mais aqui). Além do R, um outro número essencial para medir o contágio é conhecido como “fator de aglomeração e dispersão”, ou simplesmente pela letra k. Pela estimativa da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, cerca de 10% dos casos de Covid-19 são responsáveis por 80% das novas infecções (k é aproximadamente igual a 0,1).
A transmissão em massa do vírus em eventos esportivos foi documentada em jogo de futebol na Itália, corrida de cavalos no Reino Unido e torneio de basquete nos Estados Unidos. Mesmo com a redução de capacidade sugerida pela prefeitura carioca, um torcedor a cada quatro metros quadrados, as características dessas aglomerações tornam praticamente certa uma explosão no número de infectados.
Dois fatores explicam por quê. Primeiro, jogos de futebol são ambientes em que os torcedores gritam, cantam e falam alto para se comunicar. Como demonstrou um estudo publicado no ano passado na revista Nature, a voz alta está associada à maior emissão das gotículas de saliva que transmitem o vírus (leia mais aqui).
O segundo fator é puramente matemático. O governo estima oficialmente em torno de 56 mil as infecções já confirmadas na cidade do Rio de Janeiro. Levando em conta os casos assintomáticos e a subnotificação, não é absurdo supor que o vírus já tenha contaminado 7,5% dos cariocas, como constatou o último levantamento sorológico Epicovid, coordenado pela Universidade Federal de Pelotas. Isso equivaleria a pouco mais de 500 mil pessoas.
Suponhamos, para facilitar as contas, que menos de 2% dessas pessoas, ou apenas 6,7 mil, estejam na fase contagiosa da doença (uma hipótese para lá de otimista). Suponhamos ainda que um jogo receba até um terço da capacidade dos estádios como quer a prefeitura, na média 14 mil pessoas (considerando a ocupação prevista para Maracanã, Nilton Santos e São Januário). Qual a chance de haver pelo menos um infectado contagioso na torcida?
Sabendo que a população do Rio de Janeiro está em 6,7 milhões e levando em conta todas as hipóteses, a probabilidade de um carioca estar na fase contagiosa da doença seria de 0,1%. Quem passou pelo ensino médio deve saber calcular a probabilidade de nenhum dos 14 mil torcedores ser vetor de transmisão do vírus. Precisamente: 0,000082%. Na prática, zero. É certo que haverá um transmissor berrando o nome de seu time ou, no mínimo, gritando a cada lance. Se houver gol então…
Com 2.500 pessoas, a probabilidade de haver um infectado transmitindo o vírus no estádio já seria superior a 90%. Isso, repita-se, na hipótese otimista de que menos de 2% dos que tenham pegado Covid-19 estejam na fase de transmissão da doença. Em plena pandemia, eventos que reúnem mais de 50 pessoas sempre serão focos prováveis de contágio. Ainda mais no caso de uma doença para a qual o risco dos superdifusores está comprovado.
Não fica difícil entender por que, na Europa, onde aparentemente os dirigentes de futebol passaram no vestibular e não têm vocação para pôr a torcida em risco, os jogos foram retomados sem venda de ingressos. Aqui no Brasil, ao contrário, nossos cartolas e autoridades ainda padecem dos males já diagnosticados por Nélson Rodrigues.
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