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Não é hora de sair da quarentena

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É irresponsável encerrar o isolamento social sem armas para combater as novas ondas do vírus Mulher com máscara de proteção passeia seu cão em rua vazia de Paris no último sábado (25/4). O país aprovou ontem medidas para o fim gradual do isolamento social
Michel Euler/AP
À medida que as quarentenas se estendem mundo afora, surgem pressões pela reabertura. Nos Estados Unidos, estados como Geórgia, Texas e Flórida planejam a retomada das atividades, mesmo que o vírus não esteja sob controle. Na França, o Parlamento aprovou ontem o plano do premiê Édouard Philippe para o “desconfinamento progressivo” a partir de 11 de maio. Na Alemanha, o sucesso na estratégia de combate ao novo coronavírus fez crescer a pressão pelo fim do isolamento social.
No Brasil, não é diferente. Os governadores do Distrito Federal e Santa Catarina já planejam a retomada das atividades, mesmo que os casos de Covid-19 continuem a crescer. Mesmo em São Paulo, estado até agora mais atingido pela pandemia e onde o governo tem se mantido favorável à quarentena, oficialmente ela termina até antes da França, no dia 10 de maio. Para não falar, claro, em Bolsonaro, cujas palavras diante do recorde de mortes atingido ontem foram: “E daí?”.
Abstraindo – se é que é possível – o fator Bolsonaro e o negacionismo dos que ainda desdenham a ameaça do coronavírus, a pressão pela reabertura tenderá a crescer nas próximas semanas na população. Uma pesquisa divulgada hoje pelo Datafolha aponta uma queda no apoio ao distanciamento social nas últimas semanas, de 60% no início de abril para 52% agora. Não deve ser coincidência que o apoio a Bolsonaro (xi, não deu para evitar…), em queda nos estratos intermediários da sociedade, tenha crescido ligeiramente entre os mais pobres e sem instrução, os economicamente mais afetados pelo isolamento.
A questão central continua a mesma que coloquei aqui há duas semanas: quando sair da quarentena? Estendê-la por tempo demais resultará num preço desnecessário, num momento em que a paralisia econômica já deixará uma conta exorbitante aos próximos anos, talvez décadas. Interrompê-la antes da hora, porém, sem condição de deter novos surtos, só dará ao vírus a oportunidade de retomar seu avanço destruidor e de gerar um novo colapso no sistema de saúde.
Tome o caso da província japonesa de Hokkaido, uma das primeiras atingidas pelo coronavírus, ainda no final de janeiro. A quarentena foi decretada em 28 de fevereiro, quando havia 66 casos confirmados. Três semanas depois, com menos de dez casos diários, o governador local, um jovem de 39 anos com índices invejáveis de aprovação, decidiu suspender as restrições, embora tenha pedido a cooperação voluntária da população. O resultado foi desastroso. O número de casos explodiu para quase 300 até último dia 14, quando foi decretado um novo estado de emergência, ainda incapaz de conter o contágio.
A resposta sobre o fim das quarentenas, portanto, também continua a ser a mesma de duas semanas atrás. Depende de seis questões: a curva de crescimento do contágio; a capacidade de atendimento médico; a capacidade de testes; a extensão da imunidade na população; a existência de uma estrutura de vigilância e isolamento dos novos casos que inevitalmente surgirão; e também, naturalmente, a manutenção das medidas de prevenção adotadas, como uso de máscaras e práticas de higiene e proteção em hospitais e asilos.
Não há, é preciso enfatizar, um critério científico absoluto para determinar o fim da quarentena. Os planos mais sofisticados em países como França ou Estados Unidos (como os recomendados em estudos da Fundação Rockefeller ou da Universidade Harvard) são enfáticos em reconhecer o caráter experimental da nova fase de combate à pandemia. Será preciso acompanhar a evolução do vírus, por meio de testes em massa, e reagir com isolamentos pontuais quando necessário.
O que não dá é para ensaiar sair da quarentena sem satisfazer nenhuma das condições acima. É o caso do Brasil. Ainda estamos longe do pico da curva de contágio, que continuam a quebrar recordes diários. Não há uma estrutura de testes em massa para acompanhar a evolução do vírus, portanto desconhecemos os níveis reais de infecção e imunidade. Até o número de mortes tem sido subestimado, como já escrevi repetidas vezes (aqui e aqui). Rastreamento digital e isolamento de novos casos nem entraram na agenda das autoridades (leia mais aqui).
Mesmo os populistas no poder deveriam ter noção do risco de haver disparada nas mortes e de estados brasileiros repetirem o quadro macabro de Lombardia ou Nova York. Falar em fim do isolamento social hoje no Brasil não passa de demagogia e irresponsabilidade.
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