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O maior escândalo da pandemia

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A retratação de duas das maiores revistas médicas do planeta revela os riscos da ciência feita às pressas, na tentativa de acompanhar a velocidade do novo coronavírus Cápsulas de cloroquina manipulada em laboratório
Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo
A retratação de de dois estudos publicados em duas das mais prestigiadas revistas médicas do mundo – The Lancet e New England Journal of Medicine (NEJM) – revela os riscos da ciência feita a toque de caixa durante a pandemia, com frequência movida por interesses que transcendem a busca pela verdade.
Retratar-se é evidentemente melhor que insistir no erro – e os autores devem ser reconhecidos por ter recuado, em vez de relutar e negar os fatos. Mesmo assim, é uma vergonha sem paralelo para os cientistas e, acima de tudo, para as publicações. Na pressa de demonstrar resultados durante a pandemia, ambas se mostraram incapazes de submeter os artigos a uma revisão competente.
É o maior escândalo científico desta pandemia. Sobretudo porque um dos estudos, publicado na Lancet, tratava de um tema politicamente sensível, explorado pelos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro: o uso das drogas cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Com base em dados fornecidos pela empresa americana Surgisphere, que alegavam retratar mais de 96 mil pacientes em 671 hospitais, o estudo associava as drogas a maior mortalidade.
Não era um resultado definitivo, pois não foi um estudo controlado, com amostras aleatórias de pacientes recebendo as drogas e placebos. Era apenas uma pesquisa de observação. Mesmo assim, o resultado estatístico era robusto. O tamanho da amostra era suficiente para levantar uma suspeita fundamentada de risco.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu as pesquisas em andamento com a cloroquina. Adversários de Trump e Bolsonaro celebraram. Com a retratação, são os partidários deles que celebram. A OMS retomou as pesquisas. A questão continua em aberto. Por enquanto, não há base científica que recomende o uso das drogas. Outras pesquisas verificaram efeitos nocivos em pacientes internados – e nenhum benefício (leia mais aqui).
O outro estudo objeto de retratação, antes publicado na NEJM, usava dados da Surgisphere para concluir que o uso de certas drogas para pressão alta não aumentava o risco de morte por Covid-19. Um terceiro estudo apontava, também com base em dados da Surgisphere, benefícios no uso da droga ivermectina em pacientes graves. Mesmo sem ter sido publicado em revistas médicas, foi usado pelo governo peruano como justificativa para investir na compra e no uso dela.
Todos os três estudos padeciam do mesmo problema, segundo revelou uma investigação do jornal The Guardian: os dados não param de pé. No início, o Guardian revelou que cinco hospitais australianos usados no estudo da Lancet registravam 73 mortos em 21 de abril, quando a base de dados da Universidade Johns Hopkins, referência no acompanhamento da pandemia, somava apenas 67.
A Surgisphere informou então que um hospital da Ásia havia sido incluído por engano no total da Austrália. Só que os hospitais australianos negaram ter fornecido os dados. A Lancet publicou então uma correção. Mesmo que esses dados fossem desprezados, as conclusões do estudo se mantinham intactas.
Os autores decidiram promover uma auditoria externa nos dados da Surgisphere. Alegando manter a privacidade dos pacientes, a empresa se recusou a fornecê-los na íntegra (em nota, ela reitera a integridade de seus dados). Diante disso, era praticamente inevitável a retratação. Mas não foi imediata. Primeiro, tanto Lancet quanto NEJM publicaram “notas de atenção”. A retratação só veio depois que o Guardian publicou uma segunda reportagem questionando inconsistências da Surgisphere e de seu fundador, Sapan Desai.
Entre outras denúncias, Desai foi acusado de empregar funcionários sem conhecimento técnico – como uma modelo e um autor de ficção científica – e de ter uma presença digital suspeita. Foi citado em três processos por sua conduta como médico, em que alega inocência. Mais grave, pesquisadores ouvidos pelo Guardian consideram impraticável que a Surgisphere tenha conseguido reunir em tão pouco tempo dados tão sensíveis, de bases tão díspares espalhadas pelo mundo.
Ainda mais grave foi a displicência com que tais dados foram tratados, tanto pelos demais autores – todos vinculados a instituições de prestígio – quanto pelos revisores que endossaram os estudos para publicação. Descontada a possibilidade de má-fé ou manipulação, a única explicação plausível é a pressa de trazer novidades durante uma pandemia que, de modo inédito, jogou os holofotes do planeta sobre a produção científica.
Quem jamais havia aberto uma revista médica ou conversado com um pesquisador se pôs nos últimos tempos a debater cloroquina nas redes sociais como se discutisse futebol. A explosão de pesquisas sobre temas ligados à Covid-19 gerou uma enxurrada de artigos preliminares na internet, citados e abusados como se já estivessem referendados pela comunidade acadêmica.
Um levantamento de pesquisadores britânicos – por ironia, publicado online na forma de artigo preliminar – identificou mais de 16 mil trabalhos sobre Covid-19, 6 mil disponíveis em servidores de “preprints”. O novo coronavírus atrai, segundo eles, 15 vezes mais downloads. “Também descobrimos evidências de mudanças no comportamento das publicações: os preprints sobre Covid-19 são mais curtos, com menos tabelas e painéis, e passam mais rápido por revisão”, escrevem.
Não é um acaso que publicações tradicionais, como Lancet e NEJM, acelerem os rituais de revisão para publicar mais rápido. Mas o risco é evidente: a pressa inevitavelmente acarreta erros. Que o desleixo tenha vindo à tona num tema tão sensível politicamente pode ser apenas coincidência. Ou não. De todo modo, o caso serve de alerta. Nunca tanta gente precisou tanto da ciência, nem prestou tanta atenção ao conhecimento científico. Não é hora de os cientistas decepcionarem.
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