Home Mundo Tragédia anunciada nos EUA

Tragédia anunciada nos EUA

0
56
Autoridades de saúde e governos estaduais advertem que protestos que agitam o país agravará a pandemia do novo coronavírus. Manifestantes sentam um cruzamento durante um protesto pela morte de George Floyd em Los Angeles, na Califórnia, no sábado (30)
Mark J. Terrill/AP

Os protestos antirracismo que há uma semana avançam pelos Estados Unidos tiraram o foco dos estados da pandemia do novo coronavírus e, por isso mesmo, acenderam o alerta de autoridades de saúde, que preveem o inevitável recrudescimento da doença. A aglomeração é o combustível mais inflamável para a disseminação do vírus.
E há outro agravante. No país com maior número de casos do mundo, com 1,7 milhão de infectados e 105 mil mortos, a Covid-19 aprofunda também a desigualdade racial. Nos EUA, os negros morrem três vezes mais do que os brancos.
“Se você estava protestando ontem à noite, provavelmente precisará fazer o teste para detectar a Covid-19 na semana que vem”, alertou a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms.
Os estados americanos estavam começando a flexibilizar a quarentena quando explodiram os protestos contra a morte brutal do negro George Floyd por Derek Chauvin, um policial branco que pressionou, durante 8m46s, o joelho em seu pescoço até que ele perdesse os sentidos.
Num ritual diário, os protestos se alastram de costa a costa no país. Rapidamente as ruas das principais cidades se encheram de manifestantes — o oposto do que prefeitos e governadores tentaram evitar a todo custo na retomada das atividades.
A ameaça de uma segunda onda da doença, prevista para o outono no Hemisfério Norte, será antecipada. A maioria dos estados onde os protestos ocorrem é governada por democratas, que não escondem o embaraço diante do timing dos protestos. Se, por um lado, eles atacam a discriminação racial e apoiam manifestantes, por outro, discordam das circunstâncias em que ocorrem, justamente quando a quarentena era relaxada.

Tim Walz, governador de Minnesota, onde Floyd foi assassinado e os protestos começaram, não esconde a angústia: “É inevitável que teremos um novo pico da Covid-19”. A quantidade de internações aumentou no estado desde semana passada.
Em Nova York, o epicentro da doença nos EUA, com 24 mil mortos, o número de novos casos é o menor desde 16 de março. “Quantos superespalhadores da doença havia naquela multidão?”, questionou o governador Andrew Cuomo. “Você liga a TV e vê manifestações que podem estar infectando centenas e centenas de pessoas depois de tudo que fizemos.”
Ele se referia aos manifestantes que não apresentam sintomas da doença, mas são potenciais contaminadores. Quando os protestos pacíficos se transformam em confrontos com a polícia, como tem ocorrido diariamente, aumentam também as chances de contaminação: na fuga, os manifestantes exalam o ar mais rapidamente, expelindo partículas que infectam os que estão próximos.
O respeito ao distanciamento social torna-se impraticável. Gás lacrimogêneo e spray pimenta, usados pela polícia, provocam tosses e secreções respiratórias — outro campo fértil para o novo coronavírus. A inédita conjunção entre pandemia, recessão e convulsão social se apresenta como catalisadora para uma nova tragédia nos EUA.
Initial plugin text

Carregar mais artigos relacionados

Veja também

Nos EUA, mais de 97 mil crianças tiveram Covid-19 no fim de julho, diz estudo

Escolas ainda estavam fechadas no país. No início de agosto, ensino presenci…